Rússia · 1922–
Tupolev
A Tupolev é uma empresa russa de aeronáutica e defesa com sede no distrito Basmanny de Moscovo, cuja denominação oficial actual é United Aircraft Company Tupolev - Public Joint Stock Company. É a herdeira directa do gabinete de projecto soviético Tupolev (OKB-156), fundado em 1922 pelo engenheiro e pioneiro aeroespacial Andrei Tupolev, que o dirigiu durante cinquenta anos até à sua morte em 1972. Daí procede o prefixo «Tu» que identifica todos os seus aparelhos. Ao longo da sua história, a Tupolev projectou mais de cem modelos de aviões civis e militares e produziu mais de 18.000 aparelhos para a Rússia, a União Soviética e o Bloco de Leste; celebrou o seu centenário a 22 de Outubro de 2022. As suas instalações estão concebidas para a investigação aeronáutica e o projecto, ao passo que o fabrico em série fica a cargo de outras firmas. A sua carteira abrange o desenvolvimento, a produção e a revisão de produtos aeroespaciais civis e militares, incluindo sistemas de armas, tecnologias de mísseis e aviação naval. Em 2006, por decreto do presidente russo Vladimir Putin, a Tupolev passou a ser uma divisão da United Aircraft Corporation, numa fusão que reuniu também a Mikoyan, a Ilyushin, a Irkut, a Sukhoi e a Yakovlev. A empresa não foi dissolvida: mantém a sua marca, a sua direcção-geral e a sua actividade dentro do grupo. No início de 2023, a UAC confirmou que a Tupolev produziria vinte aviões por ano da variante Tu-214 e desenvolveria uma versão de carga para atender às necessidades russas.
História
Fundação e primeiros metais
Andrei Tupolev fundou o seu gabinete de projecto em 1922 com uma abordagem pouco comum para a época: aviões inteiramente metálicos. Durante os anos vinte, o OKB investigou essa via apoiando-se directamente no trabalho pioneiro que Hugo Junkers desenvolvera durante a Primeira Guerra Mundial. Daí saíram dois bombardeiros pesados com revestimento de duralumínio corrugado que marcaram a trajectória da casa: o bimotor ANT-4, que voou pela primeira vez em 1925, e o quadrimotor ANT-6 de 1932, do qual derivou o gigantesco ANT-20 «Maxim Gorki», o maior avião dos anos trinta. A abordagem de projecto daqueles dois aparelhos definiu durante décadas as tendências da aviação pesada, civil e militar.
A época dourada soviética
Durante a Segunda Guerra Mundial, o bombardeiro bimotor Tu-2 foi um dos melhores aparelhos soviéticos de primeira linha; fabricou-se em grande número a partir de 1942, com fuselagens traseiras de madeira devido à escassez de metal. Terminada a guerra chegou o Tu-4, cópia do B-29 Superfortress norte-americano, e a partir dele a casa desdobrou o seu catálogo mais reconhecível: o jacto Tu-16, o Tu-95 com os seus quatro turbo-hélices Kuznetsov NK-12 —o bombardeiro intercontinental soviético definitivo—, e as derivadas civis Tu-104, primeiro avião a jacto de passageiros soviético, e Tu-114. Um traço característico dos seus grandes aviões subsónicos são as gôndolas que sobressaem do bordo de fuga da asa para alojar trens de aterragem com muitos pneus de baixa pressão, imprescindíveis nas pistas de má qualidade da União Soviética: o Tu-154 chegou a montar catorze rodas, as mesmas que um Boeing 777-200 muito maior.
Supersónicos e mudança geracional
Nos anos sessenta, Alexei Tupolev, filho do fundador, integrou a direcção e encabeçou o desenvolvimento do Tu-144, o primeiro avião de passageiros supersónico do mundo, além do popular Tu-154 e do bombardeiro Tu-22M. O Tu-144 revelou-se uma desilusão: os acidentes de 1973 e 1978 levaram à sua retirada do serviço de passageiros nesse mesmo ano. Nos anos oitenta, o gabinete desenvolveu o bombardeiro estratégico Tu-160, de asa de geometria variável.
Etapa pós-soviética
Com o fim da Guerra Fria, o trabalho reorientou-se para a aviação civil subsónica, a economia de exploração e os combustíveis alternativos, com os Tu-204/Tu-214, o Tu-330 e o Tu-334. Alexei Tupolev dirigiu a empresa até à sua morte em 2001. A companhia chegou a contar 3.524 empregados em 2011 e desde 2006 opera como divisão da United Aircraft Corporation.
Catálogo — Aviões
- 1952
Tupolev Tu-95
O Tupolev Tu-95 — «Bear» na nomenclatura da OTAN — é um bombardeiro estratégico pesado soviético de quatro turbo-hélices, concebido para atingir alvos nos Estados Unidos sem reabastecimento e capaz de transportar armamento nuclear. Voou pela primeira vez em 12 de novembro de 1952, entrou ao serviço da Aviação de Longo Alcance soviética em 1956 e, sete décadas depois, continua em linha de voo nas Forças Aeroespaciais russas, que preveem operá-lo pelo menos até 2040. É o único bombardeiro estratégico a turbo-hélice ainda em serviço operacional e o único avião de hélices com asa em flecha fabricado em grande série: uma combinação tão improvável que os serviços de informação ocidentais demoraram anos a acreditar nos números que mediam. A sua origem remonta a um requisito soviético de 1950, dirigido tanto ao gabinete de projeto de Tupolev como ao de Miássischev, que pedia um bombardeiro com 8.000 km de alcance sem reabastecimento e capacidade para transportar 11.000 kg de carga até ao objetivo. A geração anterior — o Tu-4, cópia não autorizada do Boeing B-29, e o seu desenvolvimento ampliado, o Tu-85 de 1949 — tinha demonstrado que o motor de pistões tinha atingido os seus limites. Os turborreatores disponíveis, por sua vez, consumiam demasiado. Andrei Tupolev apostou numa terceira via que quase todos consideravam ultrapassada: quatro turbo-hélices de potência extrema, com os quais prometia superar os 13.000 km de alcance e os 800 km/h a 10.000 metros de altitude. O governo aprovou formalmente o projeto «95» em 11 de julho de 1951. A aposta assentava num motor extraordinário. O Kuznetsov NK-12, desenvolvido por uma equipa em que participaram engenheiros alemães internados após a guerra sob a direção de Ferdinand Brandner, continua a ser o turbo-hélice mais potente jamais posto ao serviço. Cada um dos quatro motores aciona duas hélices contrarrotativas de quatro pás com 5,6 metros de diâmetro. Em regime de cruzeiro, as pontas dessas pás ultrapassam a velocidade do som, dando origem à assinatura mais célebre do aparelho: o Tu-95 é um dos aviões militares mais ruidosos alguma vez construídos, audível a partir do cockpit dos caças que o escoltam e detetável pelos hidrofones subaquáticos do sistema SOSUS. Em serviço, o «urso» foi o pilar da dissuasão nuclear soviética. As suas tripulações treinavam ataques transpolares contra a América do Norte em missões de rotina de dez horas, duas vezes por semana, num aparelho que, nas suas primeiras versões, não tinha casa de banho nem cozinha. Um Tu-95V modificado lançou em 30 de outubro de 1961 a Bomba Tsar, o engenho termonuclear mais potente jamais detonado. E desde o primeiro contacto registado em dezembro de 1961 até ao fim da Guerra Fria, o «Bear intercept» tornou-se a imagem recorrente do confronto: só em redor da Islândia contaram-se cerca de 3.000 interceções entre 1962 e 1991, com F-102, F-4 e F-15 a voar em formação junto ao bombardeiro enquanto ambos os lados se fotografavam mutuamente. A célula revelou-se tão aproveitável que deu origem a toda uma família. O Tu-114 Rossiya reaproveitou a asa, o trem de aterragem e os motores do bombardeiro para os associar a uma fuselagem pressurizada de grande diâmetro, tornando-se o avião comercial mais rápido e de maior alcance da sua época; conserva ainda hoje o recorde oficial de avião de hélices mais rápido. Do Tu-114 nasceu por sua vez o Tu-126, o primeiro avião de alerta antecipado soviético. O Tu-142, de fuselagem alongada e trem reforçado, deu à marinha soviética a sua plataforma de luta antissubmarina de longo alcance. E em 1981 a linha de montagem reabriu para o Tu-95MS, porta-mísseis construído sobre a fuselagem do Tu-142 e concebido em torno do míssil de cruzeiro Kh-55. Após a dissolução da URSS, a Ucrânia herdou entre 23 e 29 aparelhos, a maioria desmantelados ao abrigo do programa Nunn-Lugar antes de 2001, enquanto a Rússia concentrava a sua frota em Engels e Ukrainka. As patrulhas de longo alcance foram retomadas em agosto de 2007 por ordem de Vladimir Putin, e o bombardeiro entrou em combate pela primeira vez na sua história em novembro de 2015 sobre a Síria, quase sessenta anos depois de entrar ao serviço. Desde 2022 é empregue como plataforma de lançamento de mísseis de cruzeiro Kh-101 na guerra contra a Ucrânia, e ataques ucranianos com drones destruíram vários exemplares em terra. A versão mais recente, o Tu-95MSM, substitui o radar, a navegação e os sistemas defensivos, e está equipada com motores NK-12MPM e hélices AV-60T que reduzem para metade a vibração. O que explica a sua longevidade não é a excelência de um único desempenho, mas a mesma virtude que manteve o B-52 americano em voo: uma célula grande, robusta e com margens, capaz de assumir missões que ninguém tinha imaginado quando foi desenhada. De bombardeiro de queda livre, tornou-se porta-mísseis, avião de patrulha marítima, avião comercial e plataforma de alerta antecipado. Construíram-se cerca de 500 unidades entre 1952 e a década de 1990. Se cumprir a previsão de serviço até 2040, o desenho terá acompanhado a aviação estratégica durante quase noventa anos.
- 1955
Tupolev Tu-104
O Tupolev Tu-104 é um avião comercial soviético de médio alcance, fuselagem estreita e dois turborreatores. A sua relevância histórica é dupla: foi o segundo jato de passageiros a entrar em serviço regular, depois do britânico de Havilland Comet, e entre 1956 e 1958 foi o único em operação no mundo, quando os jatos britânicos ficaram em terra após vários acidentes. O seu nome de código NATO era «Camel». O aparelho nasceu de uma necessidade muito concreta: no início da década de cinquenta a Aeroflot precisava de um avião moderno com melhor capacidade e desempenho do que os aviões de pistão então em uso. O gabinete Tupolev resolveu a encomenda derivando-o do bombardeiro estratégico Tu-16, do qual conservou asas, motores e superfícies de cauda, e ao qual acoplou uma fuselagem pressurizada mais larga para cinquenta passageiros. Dois turborreatores Mikulin AM-3 iam alojados nas raízes das asas, como no bombardeiro. O protótipo voou a 17 de junho de 1955 com Yu. L. Alasheyev aos comandos e levava paraquedas de travagem para encurtar a aterragem até aos 400 metros, porque poucos aeroportos tinham então pistas suficientemente longas. Em serviço civil o Tu-104 transportou mais de noventa milhões de passageiros com a Aeroflot, então a maior companhia aérea do mundo, e um número menor com a checoslovaca ČSA, além de ser operado pela Força Aérea Soviética. O seu historial de segurança foi pobre em comparação com os jatos ocidentais e o avião era pesado nos comandos e instável, com tendência para a entrada em perda sem aviso. Os seus sucessores foram o Tu-124, o Tu-134 e o Tu-154.
- 1957
Tupolev Tu-114
O Tupolev Tu-114 Rossiya é um grande avião comercial soviético de longo curso propulsionado por turboélices, projetado pelo gabinete Tupolev. Foi, no seu tempo, o maior e o mais rápido avião de passageiros do mundo, e também o de maior alcance, com 10.900 quilómetros. Desde 1960 detém o título oficial de avião a hélice mais rápido. O seu nome de código NATO era «Cleat». A sua característica mais singular é que, graças à asa em flecha e à configuração do grupo motopropulsor, atingia velocidades próprias dos jatos da época, 880 km/h, apesar de mover quatro turboélices Kuznetsov NK-12 com hélices contrarrotativas. Podia acomodar até 224 passageiros, embora a Aeroflot o costumasse configurar para 170 lugares com beliches e uma sala de jantar. Entre as suas raridades contavam-se as cozinhas e a zona de descanso da tripulação no convés inferior, ligadas ao superior por um monta-pratos, e um trem de aterragem tão alto — três metros a perna do nariz — que muitos aeroportos de destino não dispunham de escadas capazes de chegar à porta da cabina. O Tu-114 transportou mais de seis milhões de passageiros antes de ser substituído pelo jato Ilyushin Il-62. Construíram-se trinta e dois exemplares na fábrica aeronáutica de Kuibyshev. A sua vida comercial foi breve — voos regulares de 1961 a 1976 —, mas granjeou uma excelente reputação de fiabilidade, velocidade e economia de combustível, com um historial de segurança raramente igualado.
- 1963
Tupolev Tu-134
O Tupolev Tu-134 é um avião comercial bimotor soviético de fuselagem estreita, com os motores montados na cauda e empenagem em T, construído para rotas de curto e médio raio entre 1966 e 1989. A sua versão original distinguia-se pelo nariz envidraçado herdado da tradição dos bombardeiros Tupolev e, como outros aviões russos da sua geração, podia operar a partir de pistas não pavimentadas. O seu nome de código NATO era «Crusty». Foi um dos aviões mais utilizados nos países do bloco de Leste e prestou serviço a longo prazo em cerca de quarenta e dois países, com companhias aéreas europeias que chegaram a programar até doze descolagens e aterragens diárias por aparelho. Além do serviço regular de passageiros, foi empregue em missões de apoio da força aérea, do exército e da marinha, na formação de pilotos e navegadores e em projetos de investigação e ensaio aeronáutico. Em anos recentes vários exemplares foram convertidos em transportes VIP e aviões de negócios. Fabricaram-se 854 Tu-134 de todas as versões, incluindo os bancos de ensaios. A Aeroflot foi o seu maior utilizador: em 1995 o tipo tinha transportado 360 milhões de passageiros só para essa companhia. O número de unidades ativas foi decrescendo por motivos de segurança operacional e pelas restrições de ruído impostas aos seus motores.