Variante do Dassault Mirage III

Dassault Mirage IIIV

Protótipo francês de caça de descolagem e aterragem verticais (VTOL) derivado do Mirage III, com oito reatores de sustentação Rolls-Royce RB162 e um turbofan Pratt & Whitney JTF10 fabricado pela SNECMA (TF104/TF106/TF306) para o voo de cruzeiro. Foram construídos dois protótipos: o V-02 ultrapassou Mach 2 em voo horizontal em setembro de 1966, marca única para uma aeronave de descolagem vertical, e perdeu-se em 28 de novembro de 1966; o V-01 está preservado no Musée de l'Air et de l'Espace.

Ficha do Dassault Mirage III

Dassault Mirage IIIV
Mirage III V Le Bourget FRA 001ignis (CC BY SA), vía commons
12 de fevereiro de 1965
Primeiro voo
2
Unidades construídas

História

O Mirage IIIV (lê-se «três-vê», sendo o V de «vertical») nasceu de dois esforços paralelos. Em agosto de 1960 o governo francês lançou um programa experimental de descolagem e aterragem verticais (VTOL) destinado a dar origem a uma aeronave de combate; a Dassault propôs um delta monolugar com reatores de sustentação para a descolagem e aterragem e um turborreator convencional para o voo normal, enquanto a Sud-Aviation apresentou um projeto de configuração semelhante, o SA-X-600. A Dassault venceu o contrato de desenvolvimento, e a Sud-Aviation foi compensada com o fabrico da fuselagem tanto do demonstrador como do próprio Mirage IIIV. Ao mesmo tempo, em agosto de 1961 a NATO emitiu uma revisão do seu requisito NBMR-3, exigindo um caça de ataque V/STOL supersónico com um raio de ação de combate de 460 km, cruzeiro a Mach 0,92, uma ponta de velocidade de Mach 1,5 e uma carga útil de 910 kg. O Mirage IIIV foi apresentado a esse concurso, que reuniu onze concorrentes, e tornou-se o principal rival do Hawker Siddeley P.1154. Contou com apoio no Reino Unido, onde a British Aircraft Corporation estava envolvida no programa, e a repartição multinacional do trabalho tornava-o politicamente mais aceitável; mas o P.1154, com um único motor contra os nove do Mirage, foi considerado tecnicamente superior e declarado vencedor em maio de 1962. A França retirou-se formalmente do NBMR-3, que acabaria por ser extinto em 1965 sem que nenhuma nação encomendasse o vencedor, e a Dassault prosseguiu com os protótipos ao abrigo do programa nacional: o Mirage IIIV tinha sido encomendado em agosto de 1961 com o objetivo de atingir Mach 2.

Como os reatores de sustentação Rolls-Royce RB162 previstos para ele não estariam disponíveis antes de 1963, a Dassault converteu o primeiro protótipo do Mirage III num banco de ensaios provisório, o Balzac V, com oito RB108 e um Bristol Siddeley Orpheus sem pós-combustão. A sua missão era comprovar o conceito, o sistema de sustentação e transição e o piloto automático, idêntico ao previsto para o Mirage IIIV. O motor de cruzeiro do IIIV foi, por sua vez, testado em voo noutro derivado, o Mirage IIIT, que voou pela primeira vez em 4 de junho de 1964 e foi ensaiado até 1966.

Dassault Mirage IIIV
Protótipo Dassault Mirage IIIV de decolagem vertical

O Mirage IIIV tinha aproximadamente o dobro do tamanho do Balzac e era consideravelmente maior do que os caças contemporâneos: mantinha a planta delta da família, mas tinha uma fuselagem longa e relativamente larga e uma asa maior. Transportava nove motores: o turbofan de cruzeiro, um Pratt & Whitney JTF10 fabricado sob licença pela SNECMA, e oito RB162 montados verticalmente aos pares ao longo do eixo da fuselagem, ladeando o motor principal, usados apenas na descolagem e na aterragem. Portas defletoras móveis na parte inferior, à frente das tubeiras, ficavam colocadas a 45° para trás em solo, de modo a afastar da aeronave os gases quentes e os detritos, e desciam automaticamente até aos 90° à medida que os motores atingiam a potência máxima, para obter a máxima tração de sustentação. O controlo em voo estacionário dependia de jatos de ar comprimido, sistema já comprovado no Atar Volant. A aviónica recebeu grande atenção e é apontada como uma das principais causas dos sobrecustos do programa; grande parte do cockpit e do equipamento foi mais tarde reaproveitada no Mirage IIIF, que deu origem ao Mirage F1. A Flight International indicava um envelope de desempenho de cerca de Mach 1,15 a baixa altitude e Mach 2,3 em altitude.

Foram construídos dois protótipos. O V-01 realizou o seu primeiro voo estacionário em 12 de fevereiro de 1965, movido por um TF104; este motor foi rapidamente substituído pelo mais potente TF106 (74,5 kN), com o qual a aeronave realizou a sua primeira transição de voo estacionário para voo de avanço em março de 1966, data situada em 24 de março de 1966 pela Wikipédia em francês. Durante os seus ensaios, o V-01 atingiu Mach 1,32. O V-02, com um turbofan TF306 de 82,4 kN, voou pela primeira vez em junho de 1966 (em 22 de junho segundo a fonte francesa) e em setembro, no seu 11.º voo, ultrapassou Mach 2 em voo horizontal: Mach 2,04 segundo a Wikipédia em inglês e Mach 2,03 em 12 de setembro segundo a fonte francesa. Continua a ser a única aeronave de descolagem vertical a ter atingido Mach 2, embora o Mirage IIIV nunca tenha descolado na vertical, atingindo a velocidade supersónica no mesmo voo em que fazia a transição.

Nessa altura, o ministério francês da Defesa tinha concluído que a fórmula era difícil de aperfeiçoar e que o seu custo excedia o orçamento, e o projeto foi abandonado em maio de 1966, embora os ensaios tenham continuado. Em 28 de novembro de 1966 o V-02 despenhou-se durante um voo de ensaio em Istres; o piloto ejetou. Essa perda pôs fim ao programa sem produção em série. No início da década de 1970 o Tribunal de Contas francês relatou que o Estado tinha gasto em vão 200 milhões de francos no programa, mais 79 milhões no motor RB162, entre 1960 e 1966. Os oito reatores de sustentação, com o seu peso e encargo de manutenção, teriam imposto uma severa penalização de alcance e carga útil a uma aeronave operacional. O V-01, o único sobrevivente, está exposto no Musée de l'Air et de l'Espace, em Le Bourget.

Multimédia

Dassault Mirage IIIV
Protótipo Dassault Mirage IIIV de decolagem vertical
Dassault Mirage IIIV
Nariz e tomada de ar do Mirage IIIV, Le BourgetDiscoA340 (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIV
Mirage IIIV exposto no Musée de l'Air et de l'Espace, Le BourgetRoland Turner from Birmingham, Great Britain (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIV
Mirage III V-01, protótipo, Musée de l'Air et de l'EspacePline (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIV
Mirage IIIV, Museu do Ar e do Espaço, Le BourgetRoland Turner (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIV
Dassault Mirage IIIV exposto no Musée de l'Air et de l'EspaceDuch.seb (CC BY SA), vía commons