Variante do Dassault Mirage III

Dassault Mirage IIIS

Versão suíça de caça-interceptor do Mirage III, derivada do IIIE e fabricada sob licença pela F+W Emmen, com radar Hughes TARAN-18, mísseis Falcon, estrutura reforçada para JATO e adaptações para operar a partir de cavernas. O «caso Mirage» reduziu a encomenda de 100 para 57 aeronaves suíças, 36 delas IIIS (J-2301 a J-2336), entregues entre 1966 e 1969. Modernizado a partir de 1988 com canards; retirado em 31 de dezembro de 1999.

Ficha do Dassault Mirage III

Dassault Mirage IIIS
Dassault Mirage III-5 Risszeichnung
36
Unidades construídas

História

No final da década de 1950 a Suíça procurava um caça moderno para substituir os já obsoletos De Havilland Vampire; os Hawker Hunter encomendados em janeiro de 1958 já estavam ultrapassados pela nova geração de aeronaves capazes de voar a Mach 2. A reorganização do exército conhecida por «Armee 61» exigia um guarda-chuva aéreo sobre as divisões mecanizadas — e chegou a contemplar uma opção nuclear —, pelo que a força aérea deveria receber uma frota de aeronaves de altas prestações capaz de rivalizar com o MiG-21 soviético. Um grupo de trabalho de três membros (AGF) avaliou em voo o Saab 35 Draken, o Lockheed F-104 Starfighter, o Grumman F-11F Super Tiger, o Fiat G.91 e o Mirage IIIC, tendo-se decidido por este último. O Mirage III foi selecionado em 1961 e o Parlamento aprovou o crédito para cem aeronaves a construir inteiramente sob licença na Suíça, célula e motor incluídos. A produção foi confiada à fábrica federal de aeronaves de Emmen (F+W Emmen, hoje RUAG), sob a designação Mirage IIIS. Enquanto a linha era montada, a Suíça comprou em 1962 um Mirage IIIC de produção francesa para testar os sistemas do IIIS, voado no país a partir de 1964, e dois biplaces IIIBS nesse mesmo ano.

Baseado no Mirage IIIE, o IIIS destinava-se a desempenhar as missões de ataque, interceção e reconhecimento num único modelo, e os requisitos suíços afastaram-no consideravelmente do original francês. O radar Cyrano da Thomson deu lugar ao Hughes TARAN-18, desenvolvido especificamente para os Mirage suíços, alojado sob um radome mais fino e compatível com os mísseis americanos Falcon; a aviónica americana exigiu nova cablagem e o cockpit foi redesenhado, com painéis de instrumentos cinzentos em vez de pretos. A força aérea exigia uma robustez comparável à de uma aeronave embarcada: asas, estrutura e trem de aterragem foram reforçados, o que permitiu também descolagens curtas assistidas por JATO. Como as aeronaves deviam ser guardadas em cavernas escavadas na montanha, com muito pouco espaço de manobra, a célula recebeu quatro pontos de içamento para poder ser movida por grua, um nariz articulado — travado por cinco orifícios cilíndricos no lado direito — e uma perna do trem dianteiro alongada em 28 cm, com um alojamento modificado, o que baixava a cauda. O trem principal também mudou: no início do movimento de recolha, um segundo cilindro puxava-o para a frente, o que permitiu cargas mais pesadas sob a fuselagem e melhorou tanto a estabilidade que o conceito foi adotado noutras versões. O IIIS transportava também a cablagem para uma bomba nuclear de fabrico suíço ou francês, mas o programa nuclear suíço foi interrompido na fase de pré-produção e a Suíça também não comprou essas armas à França.

Dassault Mirage IIIS
Mirage IIIS da Força Aérea Suíça, matrícula J-2313Alan Wilson from Peterborough, Cambs, UK (CC BY SA), vía commons

Estas modificações, juntamente com a reconversão industrial necessária para maquinar as peças, dispararam os custos. Em 1961 o Conselho Federal tinha pedido um crédito de 828 milhões de francos que os responsáveis do projeto tinham deliberadamente subestimado, e o comando da força aérea tinha deixado de fora custos como o equipamento. O jornalista Marcel Kaiser, da Weltwoche, revelou o excesso de custos, e em 1964 o governo teve de pedir um crédito adicional de 576 milhões, que o Parlamento rejeitou. Pela primeira vez na história suíça constituiu-se uma comissão parlamentar de inquérito, presidida por Kurt Furgler; o seu relatório de 1 de setembro de 1964 qualificou a mensagem de 1961 como «em parte tendenciosa, em parte negligente e, nalguns pontos, francamente enganadora». O chefe da força aérea, Etienne Primault, foi demitido, enquanto o chefe do Estado-Maior Geral, Jakob Annasohn, e o conselheiro federal Chaudet se demitiram. A encomenda foi reduzida de 100 para 57 aeronaves; um crédito de 200 milhões foi aprovado em 7 de outubro de 1964 e outro de 150 milhões em 1965. O departamento militar foi reorganizado e a aquisição de armamento separada do comando militar, na origem da atual Armasuisse.

Das 57 aeronaves, 36 eram caças-interceptores Mirage IIIS, com as matrículas J-2301 a J-2336, entregues entre 1966 e 1969; as restantes eram aviões de reconhecimento IIIRS e biplaces. O IIIS entrou ao serviço operacional em 1967 e equipou dois esquadrões de caças. Com uma frota tão reduzida, a doutrina de emprego prevista deixou de ser viável e o Mirage suíço ficou confinado à defesa aérea e ao reconhecimento, o que obrigou a repensar todo o conceito «Armee 61». O seu armamento de mísseis combinava o HM-55S, designação suíça do Rb27 fabricado sob licença pela Saab a partir do Hughes AIM-26B Falcon de guiamento radar semiativo, e o HM-58S, o Rb28 derivado do AIM-4C Falcon de guiamento por infravermelhos; as fontes em inglês mencionam também o Sidewinder. Tal como outros Mirage III franceses e suíços, podia substituir um reservatório de combustível ventral traseiro por um motor-foguete SEPR alimentado por 300 litros de ácido nítrico, acrescentando 1500 kgf (cerca de 14,7 kN) de tração durante um total de 80 segundos repartidos por até três ignições; a manutenção exigente, devido ao ácido corrosivo, obrigou a instalações dedicadas em Buochs e na base aérea de Payerne.

A partir de 1988 a fábrica de Emmen desenvolveu uma modernização da capacidade de combate, com canards fixos e strakes concebidos pela FFA e pela F+W em cooperação com a Dassault e produzidos na Suíça; os trabalhos prolongaram-se até 1992. O IIIS recebeu canards fixos, strakes junto ao tubo de Pitot, um novo assento ejetável Martin-Baker, recetores de aviso radar nas pontas das asas e atrás da deriva, um dispensador de chaff/flares TRACOR AN/ALE-40 na cauda sob a pós-combustão, uma antena atrás do cockpit, um sensor na parte dianteira esquerda e, exclusivo desta variante, uma luz de identificação na tomada de ar direita semelhante à do CF-188. A modernização trouxe também uma camuflagem cinzenta em dois tons. Outra fonte situa a modernização de 30 aeronaves remanescentes em 1990.

A chegada do F/A-18 Hornet, cujo primeiro esquadrão se tornou operacional no final de 1997 — 34 unidades saíram das linhas de montagem de Emmen entre 1996 e 1999 — selou o seu destino: após 34 anos de serviço, os 29 Mirage IIIS remanescentes foram retirados em 31 de dezembro de 1999, quatro anos antes dos IIIRS, IIIBS e IIIDS, retirados em 2003. Entre 1966 e 1999 a Suíça perdeu dez aeronaves da família em acidentes. O Mirage suíço deixou também uma herança incómoda: os seus motores e algumas peças contêm tório radioativo ligado com magnésio, e em outubro de 2021 o custo previsto para a eliminação dos sete motores ainda existentes no país foi multiplicado.

Multimédia

Dassault Mirage IIIS
Mirage IIIS da Força Aérea Suíça, matrícula J-2313Alan Wilson from Peterborough, Cambs, UK (CC BY SA), vía commons
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Mirage IIIS na base aérea de PayerneKobel (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIS
Dois Mirage IIIS em rolagem, dia de visita da RS 1996Kobel (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIS
Mirage IIIS no desfile aéreo de Emmen, 5 de outubro de 1972Anidaat (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIS
Formação de quatro Mirage IIIS em Payerne, abril de 1972Anidaat (CC BY SA), vía commons
Dassault Mirage IIIS
Dassault Mirage IIIS suíço a regressar de um exercício ACMIMike Freer - Touchdown-aviation (GFDL), vía commons
Dassault Mirage IIIS
Dassault Mirage IIIS J-2324, LSMP PayernePeter Bakema (GFDL), vía commons